Torres del Paine em 10 dias


Realizar o Circuito Macizo Paine, no Parque Nacional Torres del Paine, para nós era um sonho há muito tempo. Eu já tinha realizado o Circuito W alguns anos antes e desde então tinha ficado com essa ideia na cabeça.

Essa nossa viagem foi em 2014, confesso que não estávamos em nosso melhor estado físico. Estando na estrada há alguns meses ficou difícil realizar algum treinamento. No máximo uma trilha ou outra que fazíamos pelo caminho, mas nada comparado a Torres del Paine.

Apesar da trilha ser de 10 dias, nós acabamos ficando 12 no parque, mas os últimos 2 foram apenas de descanso. Abaixo vou relatar o nosso dia a dia.

Dia 0 | Chegamos ao Parque Nacional

Como estávamos em uma viagem de carro, chegamos ao parque com o nosso próprio veículo. Em Puerto Natales havíamos alugado uma barraca para os 10 dias, única opção, mesmo usando por apenas 3 noites. Não tem como devolver no meio do caminho. Partimos cedo e por volta das 12h chegamos ao nosso tão sonhado destino.

Para quem não tem a possibilidade de carro, há ônibus que partem de Puerto Natales por volta das 7am. Todas as hospedagens da cidade podem reservar isso para você.

Era cedo e ainda teríamos tempo de arrumar as mochilas e ver o que ia ou não ia conosco na trilha. O clima estava perfeito, muitos turistas tomando um banho de sol, esticando as pernas, alguns pós trekking e outros apenas começando sua caminhada. É realmente um lugar inspirador.

Dia 1 | Ida ao Campamento Torres

Dormimos e acordamos bem ansiosos e logo após o café da manhã começamos a trilha. Ficar no refúgio foi uma boa opção já que queríamos começar a caminhada cedinho e evitar o trânsito de turistas. Não é segredo que o caminho que nos leva até o mirante é o trecho com maior fluxo de pessoas.

Nos planejamos fazer a trilha em 4h, e já nos primeiros quilômetros sentimos que seria longos dias. Com alguns dias bem puxados, mas para um início conseguimos manter um bom ritmo e chegar abaixo do tempo planejado.

Na chegada ao acampamento fomos recepcionados pelo guarda parque. Alguns acampamentos são mantido pelo órgão que cuida do parque, a Conaf. Este guarda nos passou todas as instruções. Não fazer fogueira, não lavar a louça dentro do rio e etc.

Ainda no mesmo dia optamos por ir ao mirador, ver as torres. A ansiedade voltava a nos dominar, esse é um dos trechos mais exigentes do circuito. Mas dura pouco, foram 45min de caminhada intensa.

Nosso esforço foi totalmente recompensado, uma vista incrível. Ficamos ali um bom tempo, fizemos um lanchinho, tiramos fotos e contemplamos muito antes de voltar ao acampamento.

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Foto das Torres no Parque Nacional Torres del Paine

Dia 2 | Campamento Torres ao Refugio Los Cuernos

Nós até acordamos às 5h da manhã para ir ver o nascer do sol na base das torres. Infelizmente o céu estava nublado, até chuviscava. O jeito foi voltar para barraca e dormir por mais algumas horas antes de seguir caminho, agora sentido ao Refugio Los Cuernos.

O dia foi realmente longo, foram quase 5 horas caminhando e pouco mais de 17 quilômetros. Entre sobe e desce, atravessa rio, pula pedra, tira foto e descansa um pouquinho. Mesmo andando tudo isso, nós optamos em não parar para almoçar, fazemos apenas pequenos lanches. Assim conseguimos manter o ritmo e não deixar o corpo esfriar tanto. Haja joelho, viu!

Chegamos no refugio era umas 15h, estávamos famintos e o dia esta incrivelmente lindo. O sol estava forte e fez todos do refugio e camping ficar para fora, batendo papo e ouvindo música. Um ótimo ambiente regado ao grande paredão rochoso, o Cuernos del Paine.

Dia 3 | Refugio Los Cuernos ao Campamento Italiano

Essa noite parecia que o refugio ia voar, fomos apresentados aos famosos e temidos ventos do parque. Parecia que estávamos em um filme e o clima era de cama, cobertor e pipoca. Pela manhã a única coisa a fazer era caminhar e esquentar o corpo, saímos logo após o café da manhã. O dia seria curto, mas depois de chegar no Italiano (mantido pela Conaf) ainda queríamos ir até o Valle del Francés. Lá a paisagem é deslumbrante e com ventos ainda mais fortes.

Vimos na previsão que as rajadas de vento seriam em torno de 90km/h. Pela dificuldade de andar com o vento contra não duvidamos disso. O caminho que parecia ser rápido se tornou um pouco complicado, mas nada muito sério.

Depois de acampamento armado no Italiano seguimos em direção ao Valle del Francés, paisagens, lindas montanhas, pedras e glaciares estavam sempre conosco. Uma visão bem diferente do nosso dia a dia. O caminho é tranquilo, mas o vento não facilitou e quando ficamos na parte mais aberta era preciso abaixar para não ser derrubado. Às vezes era até engraçado, faltava equilíbrio e era difícil andar em linha reta quando o vento batia.

Chegamos ao mirador com uma leve neve caindo, poderia dizer um granizo. Mesmo assim ficamos ali um tempo, com esse vento a chance do tempo abrir era grande. E o deu outra, depois de passar um pouco de frio as nuvens se foram rapidamente e deixou o grande paredão aberto. Foi possível ver a cadeia de montanhas onde estão localizadas as Torres del Paine e o Los Cuernos, além do Valle del Francés todo, um belo cenário.

Vista dos Cuernos del Paine

Dia 4 | Do Campamento Italiano ao Refugio Lodge Grey

O Circuito W acaba por aqui. Fomos dormir muito cedo pois o cansaço falou mais alto, e mesmo assim a vontade de andar era grande. Desfizemos o acampamento e fomos um dos primeiros a sair. A trilha estava vazia, não cruzamos com quase ninguém e essa é uma ótima sensação. Só nós ali no meio da natureza, sensação de bem estar única.

O caminho do Italiano ao Paine Grande, foi super tranquilo, a maior parte em terreno plano e sem maiores problemas. Só o cansaço que não permitia que o corpo acompanhasse o ritmo que a mente impunha. A todo momento era uma batalha entre os dois, o corpo pedir descanso, comida, água e a mente sempre no pique “vamos nessa que falta pouco”. Chegamos realmente cansados nesse dia, a cada momento parecia que extrapolávamos os limites anteriores. Mesmo assim tudo era recompensador.

O refugio Lodge Grey era tudo que queríamos, banho quente e uma cama macia para descansar antes do jantar. O dia só acabou depois que fomos até o mirante do Glaciar Grey. Sem palavras para descrever a beleza deste lugar. O sol estava se pondo e a luz que iluminava o glaciar nos deixava estupefatos. Fechamos o Circuito W com chave de ouro.

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Dia 5 | Travessia do Paso John Garner

Foi triste deixar o Lodge Grey, ficamos encantados. Era preciso seguir nossa caminhada, hoje seriam 10 quilômetros e a indicação que tínhamos era de 5h de caminhada até o acampamento Paso (mantido pela Conaf). Mas acabamos andando um pouco mais que isso.

Passamos por trechos com subidas e descidas íngremes, além da exposição aos fortes ventos. O mais incrível era que o céu estava azul, lindo! Chegamos ao acampamento passo em 3h, menos que o indicado e isso nos animou a seguir. Cruzando o Paso John Garner ainda no mesmo dia. A trilha para lá fecha às 15h e se o tempo virar, o que pode acontecer, não sabíamos se iremos cruzar no dia seguinte.

Conversamos com o Guarda Parque e ele disse para cruzarmos hoje e aproveitar o bom tempo, já que estávamos bem, cansados, mas não exaustos. Fizemos uma pausa, alongamos, comemos e seguimos para o Camping Los Perros. O trecho seria puxado, estávamos preparados psicologicamente e isso ajuda no físico.

O Paso

O caminho até o Paso é realmente inclinado! Haja perna e bastões de caminhada para auxiliar na caminhada, foi realmente a parte mais complicada de todo o circuito. Já estávamos cansados, mas a motivação e a realização de um sonho nos dava forças, mas sempre com a cabeça no lugar para não tomar atitudes que poderia nos prejudicar.

Ficamos por um tempo sem encontrar ninguém, mas aos poucos alguns grupos cruzaram conosco, no sentido oposto ao nosso. Diziam esses que estava nevando lá em cima, isso nos dava certo medo, mas nada de desistir. Seguimos caminhando para não esfriar o corpo. Nós que decidimos fazer a trilha nesta direção (sentido horário), para nós a correta. Assim pegaríamos o vento ao nosso favor em grande parte dos trechos, como nesse momento. Essa era uma boa dica.

Atualização: desde as últimas temporadas isso não é mais permitido, só é permitido realizar o sentido anti-horário devido ao melhor controle dos turistas.

Foram 2 horas de subida para alcançarmos o Paso e sentir o vento de verdade lá em cima, mas tudo compensou. O sorriso ia de orelha a orelha. Sem falar no céu que abriu enquanto estávamos por lá, lindo demais. Deu para ver o Glaciar Grey e sua amplitude.

Descida ao acampamento Los Perros

Não ficamos nem 10 minutos e já começamos a descer. Do mesmo jeito que o tempo abriu ele poderia fechar, e não estamos no local mais seguro do parque.

A sinalização nesta parte, quando está sem neve, é um pouco mais difícil de achar. Mas é só ir com calma que dá para ver o caminho certinho – seguindo as estacas laranjas que quase somem nas pedras de igual cor. Depois que entramos no bosque a neve começou a cair com certa força. Estava frio e havia muita lama o que dificultava caminhar e isso nos deixava mais lentos.

O Camping Los Perros parecia não chegar mais e, segundo os cálculos do mapa ainda faltavam 2 horas. Esse foi o dia mais tenso, com certeza. Mas chegamos bem. Acabamos ficando no acampamento 2 noites, a estrutura dele ainda é dos mais básicos, somente local para barracas. Não tem área para cozinhar ou mesmo uma área comum. Banho somente com água gelada e também um mini mercado. Mas havia uma obra sendo realizada para a criação de uma área comum e local para as pessoas cozinharem. Atualmente já está disponível.

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Dia 6 e 7 | Camping Los Perros ao Refugio Dickson

Agora sim, descansados. Não era necessário ficar as duas noites, mas também não foi uma má ideia. Saímos cedo e seguimos para o Refugio Dickson, um trecho bem tranquilo. Para nós era mais descida que subida, outra parte boa de fazer neste sentido (não permitido mais). Por aqui a beleza é diferente, como se mudássemos de parque. As árvores são mais altas e neste dia tivemos bastante sol. Um show de luzes e tons de verde, um espetáculo!

Chegamos ao refúgio em pouco menos de 4 horas e já começaram a surgir lindos campos – ainda pequenos – de margaridas. O Refugio Dickson é dos mais completos deste lado da trilha. Oferece área para barracas, camas, refúgio, área em comum, duchas (com água quente), almoço e jantar, além de um mini mercado. Também ficamos duas noites.

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Dia 8 e 9 | Refugio Dickson ao Camping Serón

Depois de um bom descanso e com as baterias carregadas – nossas e principalmente de todos os equipamentos que levávamos – seguimos nossa trilha.

Nosso penúltimo dia de caminhada era um dos mais longos do parque, mais ou menos 19 quilômetros. Se caminha na maior parte do tempo em planície, essa é uma parte ótima. E as poucas subidas que tivemos o vento esteve ao nosso favor, e literalmente nos levava adiante, enquanto quem vinha no sentido contrário sofria para seguir.

Levamos pouco mais de 4 horas para chegar ao acampamento e vimos um cenário incrível, de filme mesmo. Um lindo e enorme campo de margaridas onde por diversas vezes vimos lebres e muitas aves. Animais, algo que vimos raras vezes pela trilha, mas este último trecho valeu de mais por isso.

Dia 10 | Camping Serón ao Refugio Torre Norte e Hotel Las Torres

Realmente acordamos com tudo – apesar da forte chuva que caia – antes das 8h já estávamos trilhando o último dia. Ainda que faltasse alguns bons quilômetros já nos sentíamos realizados. O dia começou tranquilo, atravessando campos e somente com uma chuva chata, mas suportável.

Quando começamos a subir, já após mais ou menos 5 quilômetros de caminho plano, sempre imaginávamos que após o seguinte morro já avistaríamos o hotel ou os refúgios que marcavam o início da nossa trilha há 10 dias. Mas isso ficou somente na imaginação. O que vimos primeiro e que anunciou que estávamos próximos foram estradas de terra, dos veículos do parque. Pouco depois, os refúgios e o nosso carro. Aí foi só correr para o abraço, finalizamos a trilha!

Antes de deixar o parque para seguir nossa viagem ainda passamos duas noites por lá. A primeira no Refugio Torre Norte e depois fomos conhecer as dependências do Hotel Las Torres. Estávamos prontos para seguir nosso caminho.

O sentimento de realização era único, o sorriso estampado no rosto dizia “nós conseguimos”!

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Marcos

Nascido na Austrália, 28 anos, formado em Administração de empresa. Primeiro aventura foi em 2007 em um mochilão pela Bolívia e desde então não parou mais. Pratica esportes de aventura e ainda fotografa. Iniciante no mundo de vídeo (captação e edição).

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