Monte Roraima, a mãe das águas


Monte Kukenán visto do Maverick, no Monte Roraima

Monte Roraima estava em nossos planos há muito tempo. A tríplice fronteira; chegar perto do precipício na Ventana; ou ainda dá um tibum nas “jacuzzis”. Faziam parte do sonho, agora realizado.

O dia dia no Monte Roraima

Dia 1

Nós chegamos a Santa Elena de Uairén um pouco cedo para a trilha. Devido ao estado de incerteza na Venezuela, resolvemos chegar sempre com uma certa antecedência nas cidades. Foram três dias só esperando a trilha começar, ok não foi tão ruim assim, aproveitamos para dar uma passada no Brasil e matar a saudade de coxinha, bis e arroz e feijão. No dia e hora combinado, nosso guia, o Nelson, chegou para nos levar ao mundo perdido. Lá íamos nós.

A vila de San Francisco de Yuruaní fica a 1 hora de Santa Elena. Nosso primeiro transporte (um Uno) nos deixou na vila, pois dali só segue em 4×4, ou a pé. Foram mais 27km (mais 1 hora) até a última vila antes de seguir com mochila nas costas.

Chegamos em Paraitepuy por volta das 11h e após dar entrada no parque, ouvir o que pode e não pode, pegamos o caminho. Caminho que apesar de já bem manjado ainda tem aquele quê de descobrir um mundo novo.

Placa na entrada da vila indígena de Paraitepuy, próximo ao Monte Roraima

Placa chegando a vila de Paraitepuy

Voltando algumas horas. Quando ainda estávamos em San Francisco de Yuruaní o Nelson nos explicou como seria a caminhada. Acabamos por perceber que ficaríamos apenas 1 dia inteiro lá no topo. Pedimos então para tentar andar mais e assim poder ficar um dia a mais lá. Ele disse que dependia apenas do nosso ritmo.

Corta de volta a trilha, isso quis dizer que precisava fazer em 2 dias o que geralmente se faz em 3. Bora! O primeiro dia foi igual todo mundo e após 3h30 chegamos ao acampamento Kukenán. O caminho foi em sua maioria plano, poucas subidas, mas bom para acostumar as pernas. Antes do banho fomos ver um pouco mais dos tepuis (Roraima e Kukenán). Banho de rio, jantar cedo e cama que o dia seguinte prometia mais aventura. Antes de dormir ainda deu para dar uma nova olhada no monte que alcançaríamos no dia seguinte. Havia nublado tudo por lá.

Acampamento kukenán com nossa barraca - Monte Roraima

Acampamento kukenán com nossa barraca

Dia 2

Acordamos perto das 6am e em menos de uma hora já estávamos caminhando de novo. Quem nos conhece sabe que preferíamos um início logo cedo, pois eu sofro muito com o calor. Batata! Ali pelas 9h30, sol na cara desde as 7h30, eu já estava caindo pelas tabelas. Lembrei do sofrimento que foi a trilha em Choquequirao, no Peru.

Caminhando em direção ao Monte Roraima

Esse era o visual antes do sol sair – de fato – no segundo dia

Tínhamos água e comida, ufa! Mas como partimos antes do Nelson e de seu assistente, não sabíamos quanto tempo faltava. Tudo que sabíamos era que não havia água no caminho até o primeiro acampamento do dia (o Campo Base). Por sorte encontramos um riacho de água quase parada que permitiu que molhasse uma toalha e colocasse ao redor do pescoço.

Por volta das 10h chegamos a um pequeno descampado com um rio que cortava a área ao meio. Pensamos que poderia ser o chamado Campo Base, mas como tínhamos nossas dúvidas ainda caminhamos um pouco mais até cruzar outro rio. Resolvemos então voltar e esperar o Nelson.

Junto dele e do assistente estava um grupo grande de brasileiros que já tinha dormido no Kukenán conosco na noite anterior. Para eles o dia terminava ali, antes do meio dia. Para nós foi um lugar para fazer um pequeno lanche, respirar fundo e seguir em frente.

De novo partimos antes dos dois, mas dessa vez nossa “liderança” não duraria muito. O caminho a partir do Campo Base é pesado, alternando trechos de plano/leve subida com escadas de degraus na altura dos joelhos. Então não demorou muito para o assistente do Nelson nos passar. Após um pouco mais de uma hora atingimos a parede do monte e foi uma pequena emoção. Água caia devagar pela face do tepuy, muito bonito. Apesar de não estar no topo e o tempo não ajudar, eu já estava bem feliz.

Dali seguimos ao lado do paredão por um bom tempo, já no meio das nuvens, mal se via 5m a nossa frente. Cruzamos o paso das lágrimas, bem escorregadio e com muita água. Após essa parte resolvemos descansar, o tempo até deu uma melhorada e vimos algumas pessoas subindo também, mas nada do nosso guia.

Seguimos alguns assistentes que haviam nos alcançado e eles nos levaram até próximo ao Hotel Índio, lá já nos esperavam e seguimos ao nosso Hotel, o Basílio. Pouco depois da nossa chegada o Nelson chegou. O resto da tarde foi de descanso. Acho que nem tinha anoitecido e já estávamos dormindo.

Dia 3

Acordamos com o tempo um pouco nublado e após o café da manhã saímos para conhecer alguns pontos icônicos do monte. Passamos pela janela, abismo, sombrero, além de ver bastante da flora e fauna endêmicas. A chuva estava sempre presente mas as vezes o céu limpava. Ao final da caminhada chegamos a jacuzzi e apesar do frio e leve chuva, entramos!

Foto panorâmica nas Jacuzzi no alto do Monte Roraima

Logo depois de sairmos das jacuzzi o tempo fechou de novo!

Voltamos ao hotel para almoçar e após um rápido descanso caminhamos até a Cueva de los Guacharos. Para o final da tarde fomos ao Maverick, ponto mais alto de todo Monte Roraima. A idéia era poder ver todo o vale, mas o que encontramos? Um paredão de nuvens. Podíamos ver quase a totalidade do monte – pelo menos a parte de cima – mas, não se via mais nada. Antes que o sol se pôs nós já estávamos de volta ao hotel. O ciclo se repetiu, cansados, após o jantar… “cama”.

Dia 4

Choveu a noite inteira, sem parar, sem trégua. Um dos significados de Roraima que nos falaram era “mãe d’água”. Entendido.

Amanheceu e seguia chovendo, muito! O Nelson nos disse que é raro chover o dia inteiro e geralmente após uma noite de chuva como a anterior o tempo iria melhorar ali pelas 10h. Então foi só esperar para ver. Resumindo, nosso dia foi de espera. Esperar o almoço e a chuva parar. Esperar o café da tarde e a chuva parar. Nem precisa dizer quão cansados ficamos com tanta espera. Jogamos batalha naval no chão, stop, jogo da velha e tudo mais que nos via a cabeça. Do lado de fora, só chovia. Ainda assim, cochilamos a tarde e fomos dormir cedo! Sério, como pode?!

O Nelson disse que acordaria cedo e se o tempo tivesse aberto iria nos chamar para antes de ir embora visitarmos algum ponto que nos permitisse uma vista bonita. Sinceramente o dia havia nos esgotado de qualquer esperança.

Dia 5

Por volta das 4am a Cau levantou para ir ao banheiro e ainda chovia. Qualquer esperança foi embora ali e voltamos a dormir. Nem cochilamos direito e as 5am acordamos para começar a arrumar as coisas, não adiantava ficar mais ali esperando. Não deu nem tempo de terminar e o Nelson nos chamou, disse que estava amanhecendo um dia lindo. Não acreditamos e fomos conferir. Como mágica as nuvens haviam sumido.

Nem esperamos o café da manhã ficar pronto, fomos direto ao Maverick. Que amanhecer! Foi inesquecível e valeu o dia anterior de tédio.

O Monte Kukenán do alto do Maverick, ponto mais alto do Monte Roraima

O dia amanheceu lindo e foi possível ter uma bela vista do alto do Maverick

Ao retornar ao hotel tomamos café e arrumamos nossas coisas. Antes das 9h já estávamos pegando a trilha, o “caminho de casa”. Ainda conseguimos o paso das lágrimas com sol. Vimos que teria sido desesperador olhar aquela subida no dia que chegamos. Ufa!

O passo das Lágrimas é a última subida antes de chegar ao topo do Monte Roraima. Nessa foto estávamos descendo pois no dia da subida estava tudo nublado

Sorte a nossa que essa vista só foi possível na descida. Imagina o desânimo se tivesse visto isso subindo!

Encontramos muitos grupos subindo e perguntando como estava lá no alto. No momento estava – de novo – muito nublado mas se nossa experiência contava algo, era para se nunca perder a esperança. Nem mesmo após mais de 24h de chuva! E se no final não tiver tido a sorte de ver nada, saiba que teve sorte de ter estado lá.

Paramos novamente no Campo Base para descansar e almoçar. Após a parada seguimos em direção ao Kukenán, mas dessa vez iríamos seguir um pouco mais, até o acampamento Rio Tek. Há algumas casas por perto e é possível comprar uma cerveja ou refrigerante “al tiempo”, isto é, temperatura ambiente.

Encontramos com dois grupos de turistas que também estavam no alto do Monte Roraima conosco, havíamos cruzado com um, mas os hotéis são “tão” distantes que não se tinha tanta interação por lá. Já nessa última noite, todos no mesmo acampamento foi possível conversar e assistir a lua nascer ao lado do nosso querido tepuy.

Acampamento Rio Tek com o anoitecer e o Monte Roraima ao fundo

Nossa última noite com o Monte Roraima. Inesquecível!

Dia longo e pela primeira vez dormimos “tarde”, ali pelas 22h!

Dia 6

Último dia! Acordamos cedo e antes do café já tínhamos nossas coisas arrumadas. Café da manhã comunitário com um grupo de italianos e casal (ele argentino e ela espanhola) e partiu. Faltava pouco. O retorno pareceu mais demorado que a ida, mas provavelmente era apenas nosso ânimo.

O caminho foi longo e o sol castigou mais subindo pelo horizonte. Mas só havia uma forma de seguir, caminhando!

Por volta das 11h30 já avistávamos Paraitepuy e assim que chegamos já levamos nossas mochilas para serem revistadas. Isso mesmo, como não é permitido trazer nada do Monte Roraima, eles revistam quem chega a procura de plantas, cristais e outras pedras.

Tudo certo, após a chegada do nosso guia fomos surpreendidos ainda com uma coca gelada. Apesar de não sermos fãs, após a longa caminhada foi gratificante uma bebida bem gelada. Arrumamos nossas mochilas e doamos ao Nelson e seu assistente algumas roupas, nosso saco de dormir e isolante. Nós não iríamos mais usar por um longo período – sem trilhas – e eles precisavam.

Já nos esperava o mesmo motorista que havia nos trazido de 4×4 e rumamos para Santa Elena novamente. Chegando na cidade descobrimos que o Presidente Maduro havia dado até aquele dia para todo mundo depositar as notas de 100 do país – além de fechar a fronteira. Aparentemente, com isso, eles desmantelariam uma quadrilha que estava retirando as notas de circulação para afetar a economia do país. Nós tínhamos mais ou menos 20.000 e quase tudo nessas notas. Tivemos uma certa dificuldade mas conseguimos almoçar e estocar comida para jantar e o retorno para Puerto Ordaz no dia seguinte.

Com quem fizemos

Verde Roraima
http://www.verderoraima.com.br/
Marcelo
+55 95 3624-8057
+55 95 99111-3060
verde@verderoraima.com.br
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Quanto custou

R$ 1.250

Mas fique atento às redes sociais deles, sempre tem promoções ao longo do ano para datas específicas.

Quando fomos

Do dia 09 ao dia 15 de Dezembro de 2016, sendo o primeiro dia em Santa Elena de Uairén e mais 6 dias em trilha.

Dica

Quem tiver planejando ir ao tepuy, vale perguntar o cardápio dos dias na trilha. Nós não tivemos do que reclamar mas cada um pode se sentir mais confortável se levar algo que lhe agradar para a montanha. Lembrando que nem tudo se encontra na Venezuela atualmente, mas a proximidade com o Brasil ajuda no abastecimento.

Um exemplo do que tomamos, que não é comum para brasileiros, é um suco de aveia. Água misturada com aveia, é extremamente nutritivo e depois da primeira impressão – a visual – é bom. Mas alguns podem preferir um tang da vida. Também vale lembrar que cada um é livre para levar algo a mais que queira.

Outra dica! Vale a pena tentar fazer o tour de 10 (ou 12) dias. É bom ter mais dias no alto do Monte Roraima e com isso é possível chegar a tríplice fronteira e a proa.

Marcos

Nascido na Austrália, 28 anos, formado em Administração de empresa. Primeiro aventura foi em 2007 em um mochilão pela Bolívia e desde então não parou mais. Pratica esportes de aventura e ainda fotografa. Iniciante no mundo de vídeo (captação e edição).

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