Como “ganhar” dinheiro viajando


Marcos e Fabio no topo da casa Ecatu (Cláudia Pelegrini/A 4 Pés)

Me perguntam muito, “mas e aí, como você faz para viajar tanto e não trabalhar?” e “você juntou muito dinheiro?”. O que normalmente está implícito uma afirmação, “você é rico pra ca-ra-leo”, “só assim para viajar tanto” ou “bancado pelo papai é fácil” e assim vai.

Bom a primeira coisa que respondo é, nós trabalhamos sim! E sim, esse é mais um daqueles posts milagrosos que vai lhe ensinar a ganhar dinheiro e viajar – basicamente – ao mesmo tempo. Mas no meu caso, eu primo pelo contato com a população local e por isso busco trabalhar também “longe” do digital. Não me considero Nômade Digital, poderia dizer que sou um nômade semi-digital.

Abaixo falo principalmente da nossa (junto com minha esposa, Cau) experiência em nossa volta ao mundo. Mas dou outras opções para quem procura trabalhar e viajar. Ou viajar e trabalhar.

Trabalho voluntário

No primeiro ano de nossa volta ao mundo nós realizamos trabalho voluntário na Bolívia – não ganhamos dinheiro (a final é voluntário), mas reduzimos bastante nossos gastos. Neste caso foi algo que tivemos que mudar nosso pensamento. Em Bonito/MS conhecemos um instrutor de mergulho que nos abriu a mente para o mundo do voluntariado pago. Ele havia feito isso nas Ilhas Galápagos, no Equador. Fato, no primeiro momento eu estranhei muito essa idéia e recusava tal pensamento. Depois, pensando melhor, eu percebi como esse tipo de trabalho funciona e como ele difere de outros tipos de trabalhos voluntários (como para empresas comerciais).

Primeiramente deve-se pensar em como é organizado a instituição para onde pensa em realizar o trabalho voluntário. Neste caso da Bolívia, a AFASI (Amigos de la Fauna Silvestre) é mantido por um único homem e sua aposentadoria vindo da suíça. Nós fomos um dos primeiros voluntários de sua ONG e era mantido tudo sem auxílio de ninguém. Então não vimos nenhum problema pagar US$230 para duas pessoas trabalharem por duas semanas (foram 15 dias). Tendo direito basicamente a hospedagem e alimentação, mas com muito tempo livre para curtir o contato com a natureza e os animais. Pagando US7,50 por pessoa/dia.

Banner de divulgação da WorldPackersAlgo parecido aconteceu também em Bariloche na Argentina. Trabalhamos um mês na recepção de um hostel em troca por hospedagem e comida. Economizamos muito, mas nesse caso não tivemos que pagar nada. Era um hostel e trabalhamos na recepção durante a noite e montávamos o café da manhã do dia seguinte. O dono do hostel ainda pagou o aluguel dos equipamentos de snowboard, como parte do pagamento que ele nos devia.

Enfim, os casos citados acima são exemplos de como poupamos – o que permitiu estender o orçamento. Para mais informações visitem HelpXWorkaway, Wwoof e WorldPackers (projeto criado por dois brasileiros, saiba mais aqui).

Já no Brasil tivermos outra experiência incrível e enriquecedora. Em São Thomé das Letras, em Minas Gerais, trabalhamos com dois amigos na construção ecológica de sua futura casa. Pegamos no batente faltando ainda algumas enfiadas (como é chamado) de adobe e ficamos até pouco depois do final da colocação dos pilares do telhado. Lá conhecemos três franceses que haviam entrado em contato com outro rapaz, dono de uma ecovila na região. Como ele não poderia recebê-los, passou aos nossos amigos e estes ajudaram muito no período que estiveram lá. Além de um trabalho enriquecedor, foi possível conhecer pessoas novas.

Ganhar dinheiro tradicionalmente

Ushuaia foi – até o momento – o único lugar onde trabalhamos ganhando dinheiro, na “vida real”. Iniciamos como garçons no Bar Viagro e depois trabalhamos em uma agência de turismo auxiliando com tudo relacionado a internet e computadores. Toda a parte de conteúdo do Ushuaia Extremo Travels foi montado por nós, bem como iniciamos a agência nas principais redes sociais.

Brincando com Lightpainting em frente do Galciar Martial (Cláudia Pelegrini/A 4 Pés)

Brincando com lightpainting em frente do Galciar Martial (Cláudia Pelegrini)

Na ocasião tivemos a sorte de conseguir nos hospedar sem pagar nada. Então com o dinheiro que ganhamos na cidade, foi possível viajar por – quase – toda Argentina. Somente em Buenos Aires foi necessário usar nosso dinheiro, mas por motivos de força maior. Aquelas coisas que acontecem independente do planejamento.

Não fosse isso, teríamos saído do país ainda com dinheiro, o que nos adiantou um ensinamento muito importante. Não adianta ficar com “rios” de dinheiro de um país que não seja dólar americano ou euro. É muito difícil que os seguintes países aceitem outras moedas que não sejam essas. O peso argentino ainda tinha um agravante, a situação econômica do país permitiu com que viajássemos com pouco dinheiro e ainda assim era o suficiente para viver lá. Porém veríamos tudo sumir se nos víssemos obrigados a converter qualquer montante para dólar.

Quer juntar dinheiro? Sua próxima parada deverá ser algo como Equador (lá usam dólar), EUA, Austrália, Canadá ou Europa, sem dúvida algumas serão as nossas próximas paradas.

Ganhar dinheiro viajando, de forma não tradicional

Viver da forma tradicional em cada lugar – apesar de ser algo que buscamos muito e gostamos – seria quase inviável, nos veríamos obrigados a trabalhar muitos meses em praticamente todos os países por onde passaremos. Ainda nos limitaria – muitas vezes – de conhecer o máximo do país, que é o maior objetivo de fazer tudo isso.

Mas por conta do, nem sempre garantido, dinheiro no final do mês proveniente das formas “não tradicionais” de ganhar dinheiro, nos vimos obrigados a abrir o leque de opções e viver um mês de cada vez.

Então – auxiliado pelo trabalho que eu fazia alguns anos atrás – nós buscamos alternativas para seguir na estrada. Sou (eu, o Marcos) desenvolvedor de sistemas e desde que colocamos o pé na estrada passei a criar websites para clientes que me contratam do Brasil. Mas já realizei projetos vindos da Austrália e Argentina. Minha ferramenta de trabalho é um notebook e o meio é a internet, meu escritório? Basicamente qualquer lugar.

Alinhado a isso, eu e a Cau iniciamos trabalhos com a criação de revistas/guias de viagens publicados em plataformas como Amazon Kindle, Google Play e o AppStore, da Apple. Quase todo o processo, desde a criação e produção destes, são feitos por nós mesmos – o que reduz, e muito, nossos gastos. O primeiro projeto que lançamos foi o Guia Brasileiros em Torres del Paine. Desenvolvemos tal trabalho para terceiros também.

Outro trabalho que desenvolvemos a parte da viagem é o site Guias de Viagens, que busca trazer todos os guias de viagens já produzidos online (gratuitos ou pagos), para o internauta planejando sua próxima viagem.

Além disso, participamos também de alguns programas de afiliados de sites que usamos regularmente durante nossa viagem. Na barra lateral, em todo o site, há a possibilidade do leitor pedir uma cotação de um seguro de viagem da WorldNomads ou reservar sua próxima hospedagem pela Booking.com. Nós recebemos uma porcentagem por cada pessoa que fechar algo (seguro de viagem ou hospedagem) com eles, o preço para quem contratar é o mesmo. Pensando em facilitar a vida de quem está lendo nosso site, quando citamos hospedagens por onde passamos que estão listados no Booking.com, facilitamos a busca do leitor, disponibilizando um link para reservar aquele lugar através do site do Booking.

Outra opção é se afiliar a sites de e-commerce (nacional ou não). Nós nos afiliamos a Amazon e Submarino, mas pode se afiliar a outros também. Lembrando que apenas nos afiliamos de lugares que já utilizamos e confiamos no trabalho.

Algumas outras idéias

Abaixo citamos algumas outras idéias de como ganhar dinheiro (ou economizar bastante) enquanto viaja.

  1. Professor – sabe falar inglês? fluente? Ótimo, há várias oportunidades nos sites já citados acima (HelpX, WorldPackers, etc.)
  2. Tradutor – sabe falar mais de uma língua? (ulálá) Pode lhe ajudar a conseguir um emprego no governo (talvez em embaixadas/consulados) ou ainda agências de viagem.
  3. Trabalhar em um cruzeiro – minha irmã já trabalhou na costa da Europa e do Brasil e comenta que é bastante difícil, tem que ter sorte para que seu dia de folga seja também um dia que a embarcação está em um porto. Mas é também uma ótima forma de juntar dinheiro, pois além de um salário bacana, você não paga pela comida e hospedagem. As funções em um cruzeiro são as mais variadas, a final são uma cidade flutuante, eles precisam de médicos a personal trainers, de mecânicos a cozinheiros, a lista é grande.
  4. Babá – praticamente todo mundo conhece alguém que já trabalhou como babá fora do país. É perfeitamente possível, mas não esqueça, você tem que amar crianças!
  5. Limpeza – não pensa só em diarista/empregada doméstica (essas funções pouco existem ao redor do mundo). Pensa em limpeza de apartamentos ou casas de verão/inverno. Onde é possível limpar vários no mesmo dia e ganha-se por produção/casa limpa. Brasileiros tem um certo toque por limpeza e manjam dos paranauês quando a questão é esfregação, gostamos das coisas limpas. Como na história do Antônio (o Kiko), ele viveu um tempo fora do país e essa foi uma dos trabalhos que ele exerceu nos EUA.
  6. Garçom (garçonete) ou Bartender – curte uma noite longa, música alta e muita gente? Esse trabalho pode ser para você, seja dentro de um hostel em Munique/Alemanha (como no Euro Youth) ou num bar em Ushuaia/Argentina (como no Bar Viagro). Esse trabalho, muitas vezes, é simples de encontrar, uma caminhada pelo centro da cidade pode revelar anúncios nas janelas de muitos estabelecimentos.
  7. Cozinha – curte cozinhar? sabe a diferença entre um corte brunoise e julienne? Nem eu, só sei que há. Mas para quem tem afinidade, pode oferecer seus serviços em restaurantes ao redor do mundo. Inclusive em um cruzeiro.
  8. Guia turístico – se você só fala português, procure lugares onde brasileiros estão em grande número. Paris, Orlando, Cusco e Buenos Aires são algumas opções. Você pode oferecer tours guiados através de uma agência ou por conta (com divulgação feito pela internet, por exemplo). Já pensou em criar um free walking tour em português? Há poucos, seria um diferencial.
  9. Agente de viagem – se tem bastante contatos em turismo, agências, companhias aéreas, hospedagem e etc. você pode gerenciar a viagem de turistas. Passar todos os detalhes para eles e se eles quiserem, você fazer a reserva. Veja o serviço que nós oferecemos neste link.
  10. Escritor freelancer – jornalista? ou não também, quem curte escrever pode criar um portfolio de textos publicados (na internet ou impresso) e começar a vender pauta para diversas publicações.
  11. Fotógrafo – se você já tem um equipamento de fotografia e não liga de viajar também com um tripé, você pode conseguir alguns trabalhos como fotógrafo. Suas opções aumentam dependendo do equipamento. Um flash, por exemplo, pode lhe garantir trabalhos em eventos noturnos/festas. Também pode oferecer seu trabalho em troca de hospedagem, há muitas hospedagens precisando de novas (e melhores) fotografias.
  12. Cinegrafista – há alguns serviços que vendem seu material “cru” para outras produções e você ganha uma grana. Outra opção, se manja de edição, é o Youtube, já conhece nosso canal?
  13. Instrutor de mergulho – parece loucura né? Mas conhecemos a história de um mergulhador que tirou certificação no Caribe – por que era mais barato – fez trabalho voluntário para ganhar experiência e hoje é instrutor de mergulho em um dos lugares mais fantásticos do planeta, Bonito no Mato Grosso do Sul.
  14. House Sitter – aqui dificilmente ganha-se dinheiro, mas permite longas estadias (as vezes muitos meses) em lugares apaixonantes, enquanto se vive uma vida de local. A vantagem dessa opção seria juntar esse trabalho com outro emprego que lhe pagasse. Alguns sites para fazer isso são: House Carers e HouseSit Match.
  15. Designer gráfico – Coloquei apenas essa opção, pois meu texto acima citou outros que eu uso. Sabe desenhar sites? Themeforest pode lhe ajudar a vendê-los e atingir um público muito grande. Faz material de escritório (cartões, papelaria e etc.)? O WeDoLogos pode ser uma ótima ferramenta para conseguir novos jobs.
  16. Agricultura – voltamos ao passado. Muitos lugares precisam de voluntários (ou funcionários mesmo) para auxiliar em sua colheita. Pode encontrar diversas opções no HelpX e, principalmente, no WWOOF.

Pense FORA da caixa

Ok, é possível que tudo que falei aqui em cima não é muito sua praia. Criar páginas, guias, etc. não é a tua, sem problemas. O importante é saber pensar fora da caixa, mas você pode pensar, eu sou formado em advocacia, como posso aplicar isso e ainda viajar. Bom eu indicaria o livro Where the Hell is Tuvalu? do Philip Ells (pode comprar aqui), um jovem advogado britânico que “largou tudo” para exercer sua profissão em um pequeno paraíso no pacífico. Ah! mas ele não viaja o mundo, mas você entendeu o conceito né?

Isso vale também para médicos (já pensou no Médicos Sem Fronteiras? Eles possuem projetos em quase 70 países), professores (o HelpX tem algumas vagas para professores) e outras profissões tradicionais. É possível continuar exercendo sua profissão, sua paixão/vocação, e ainda conseguir viajar e/ou morar fora.

Outro livro que indico é “Voltar, Nem Pensar”, é uma história de uma família inglesa que largou tudo para morar em um sítio na Espanha (o livro está esgotado na editora, mas pode comprar no Estante Virtual). Esses dois livros fizeram parte da inspiração que me fez querer fazer isso.

Tem alguma dúvida como iniciar (se jogar)? Manda suas dúvidas nos comentários abaixo que todos aprenderemos juntos com a troca de experiência.

Foto destaque: Cláudia Pelegrini / Arquivo pessoal

Marcos

Nascido na Austrália, 28 anos, formado em Administração de empresa. Primeiro aventura foi em 2007 em um mochilão pela Bolívia e desde então não parou mais. Pratica esportes de aventura e ainda fotografa. Iniciante no mundo de vídeo (captação e edição).

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